Chris Bicalho
A NEW WAY OF LOOKING AT TRAVEL
20 SET
08:52 PM

NO SALTO DA BOTA

Quando todos os olhos se voltam para Toscana (e a gente prefere fechá-los com medo do que pode acontecer depois da novela), quando todos os barcos dão as costas para o Tirreno, quando todos os cães ainda descansam para a próxima caça às trufas no Piemonte é quando Puglia entra em cena.

É para o extremo sul da Itália, no salto da bota, no encontro dos três mares,  que as andorinhas voam agora. Começo de outono, sol na temperatura certa, nada de aglomerados, praias que você jurava existir apenas na Grécia e vilarejos perdidos no tempo, cada um com seu ‘centro storico’. Pelas ruas e vielas, heranças de antigos invasores: gregos, romanos, turcos, saracenos, etruscos…

E todos que lá passaram lá deixaram suas marcas, suas histórias. Está lá até hoje, cada pedra, cada coluna, as lindas trulli (aquelas casinhas com telhado pontudo, coladas umas às outras… O que restou e o que ficou, um cenário global-vintage, cosmopolita à moda antiga. E põe antiga nisso.

Impressionante é perceber como até agora pouca gente fala de Puglia, assim, com propriedade. Bom disso tudo é que nessa luta diária de procurar esconderijos onde possamos ver de tudo e não ser visto por nada já podemos incluir mais um destino no caderninho de couro.

Londres acaba de abrir rota para lá, desembarcando em Bari e Brindisi – o voo é da Ryanair, daquele jeito que você desconfia. Mas é o que temos, a não ser que você voe private. Mas ok, a viagem não dura mais de três horas. Outra boa nova é que um super hotel acaba de abrir as portas na pequena cidade de Savelletri de Fasano, vizinha a Lecce – a “Firenze do Sul” com seus dois mil anos de vida.

Em estilo mourisco, o monocromático Borgo Egnazia está de frente para o Adriático, de costas para as oliveiras e arancetos e bem ao lado de um sítio arqueológico descoberto durante a construção. Tem de tudo, aquele papo spa e tal, mas é a sua praia particular que já faz valer a hospedagem, assim como o restaurante – ali, veramente, uma legítima cozinha fusion elaborada com as receitas de todos os povos que um dia passaram por ali. Não sei você, mas eu me convenci. Proceed to gate. Puglia, aí vou eu.

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17 SET
05:35 PM

AMOR DE MÃE


Não chega a ser novidade, mas é uma boa nova para quem ainda vive Paris à moda antiga, ali, preso entre Saint-Germain e o Triangle D’Or. Lá no 20ème, a última das arrondissements, pertinho do cemitério Pere Lachaise (quem de nós, na juventude mais tenra, lá pelos 16, não visitou o túmulo de Jim Morrison?), está o Mama Shelter, hotel-boutique inaugurado em 2008 com a intenção de revitalizar “East Paris” e atrair fashionistas e bons turistas para a área.

Não me pergunte se o plano funcionou ou não, mas seu restaurante deu certíssimo. Cozinha francesa tradicional, deliciosos pratos de brasserie servidos em um simpático terraço ao ar livre fazem a cena. Pense em escargots, moules e steak com frites comme il faut, sem surpresas boladas por um chef inventivo. O décor é de Starck, assim como de todo o hotel. Tem aquela cara de Kartell, muito acrílico e tal, mas enfim, já passei da fase de criticar as demasias “starckianas” pelo mundo.

In loco, o designer parece ter se divertido ao pensar que cara teria o Mama Shelter: no bar, por exemplo, batizado de Chic-Chic, chamam a atenção uma mesa de totó (os portugueses chamam de matraquilhos, não é uma fofura?) e paredes + teto tipo quadro negro onde você pode deixar mensagens do tipo “estive aqui no dia tal” ou recados para quem quiser. Tipo para Starck, pedindo pra ele dar um tempo daqueles bancos de anão.  Brincadeiras à parte, Mama Shelter, como diz o nome e como reza a cartilha de seus serviços, é um abrigo perdido na região mais esquecida de Paris. É casa de mãe mesmo.

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16 SET
03:59 PM

NAVEGAR É PRECISO

Qual é a praia mais incrível do mundo? Sem dúvida, a mais deserta delas (com all inclusive service, né?). E na busca incessante de um paraíso para chamar de meu, pelo menos por uma semaninha, viro meu timão e rumo para o Índico africano – talvez o último bastião de tranquilidade veranista da rota.

Ainda pouco explorado, sem aquela infinidade de resorts e lodges ocupando o melhor pedaço da areia, o litoral que vai da Somália ao Moçambique é o novo hot spot dos low setters, sedentos por uma vida mais éxotique e menos frénétique. E depois de afogar o lugar comum nas águas de Zanzibar e Bazaruto, a turma agora aporta na costa do Quênia, no arquipélago de Lamu, nome que também batiza a pequena e charmosa vila fundada no século 14, a mais antiga do país.

Patrimônio da Unesco, preserva até hoje traços da arquitetura do povo Swahili + influências de todos os povos invasores que já pisaram ali, dos portugueses aos omanis. Junte a isso as praias, sempre vazias, de águas claras e mornas, frequentadas apenas pelos nativos, que vão e vem em suas embarcações fartas de peixes e frutos do mar que, com jeitinho, você consegue convencê-los a assar ali mesmo, sob o fogo que nasce do sol que bate na linha do equador.

Mas é claro que o sono dos justos merece um lugar daqueles. E antes que todas as bandeiras hoteleiras se finquem por lá, vai na minha: hospede-se no Kiwayu Village, no parque ecológico Dodori, de longe a região mais linda e intocada de Lamu. É papo para quem está a fim de desbravar, descansar, sair de cena numa vibe 100% simples. Reciclagem natural, para melhorar a imagem, sabe? Para chegar, 90 minutos de avião a partir de Nairóbi.  E para fechar a temporada, que tal um safári no Seringeti?

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16 SET
02:09 PM

PREPARO INSTANTÂNEO

Vem de Londres, claro, mais uma modinha que o mundo não tarda a adorar – e depois copiar. Os pop-up restaurantes são a sensação da temporada, deste verão especialíssimo que se despede na semana que vem sem chuva e com muito sol. Sim, pela primeira vez em décadas o trench quase não saiu do armário. E os ingleses brindaram (jura?) com muitas doses de Pimm’s o milagre alcançado.

Ah, sim, os pop-up restôs. Comandados por um chef, do estilinho Jamie Oliver de ser, cute & cut, são instalados em endereços efêmeros por duas ou três semanas, obviamente em pontos estratégicos, reduto da artsy people, da juventude boa de garfo que não fica esperando uma estrela Michelin cair do céu. Ou seja, East London e adjacências, de Shoreditch a Islington (Islington is the new Hackney).

É lá que está, desde a quarta-feira, o Hel Yes! Cozinha finlandesa das boas assinada por Antto Melasniemi e com menu tradicionalíssimo. Nada de imersões, emulsões, reduções ou confusões. Comida caseira, perfumada, farta – that’s 2010. Pense em carne de rena defumada e guisados à moda Karelian (kassler, berries + beterraba). Mas aviso: nunca se sabe o que o chef irá servir, o cardápio muda o tempo todo – faz parte do espírito pop-up de ser. O restaurante fica até 3 de outubro na Wenlock Road, num antigo armazém especialmente decorado para a “ocasião”.

Do chão ao teto, peças de edição limitada assinada por Alvar Aalto, o pai do design finlandês, florzinhas da Marimekko e outros elementos da cultura nórdica que, você pode até desconfiar, devem ter vindo da Ikea de Edmonton. Tudo bem, nada mais efêmero que uma boa mesa da Ikea para comer em um restaurante que só vive três semanas por ano. Cada coisa tem o seu lugar. E se o lugar muda o tempo todo é bom mesmo que tudo seja desmontável. Como uma mesa Ikea. Yes, corre pra lá.

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